Escondido no compartimento de bagagem

(1) Imagine um navio que sai do porto com 100 passageiros. A sua capacidade de carga é de 10.000 kg. Se a distribuição fosse igualitária, cada passageiro poderia trazer 100 kg em bagagens, mas as coisas não são assim. As bagagens do passageiro mais exagerado somam 4.000 kg. Os 31 passageiros medianos carregam 5.700 kg ou 184 kg cada um. Por fim, temos os outros 68 passageiros que não carregam quase nada, 0,300 kg. Ao longo da viagem, estes 68 percebem que não terão o suficiente para sobreviver muito tempo e começam a oferecer serviços aos outros. Os medianos concordam, mas como não querem abrir mão dos seus bens, eles pagam pelos serviços com tickets que serão trocados no próximo porto. A troca de tickets aumenta a bagagem do navio de maneira gradual. Ele começa a afundar, mas ninguém percebe. O processo está mascarado pelo subir e descer das ondas.
(2) Os passageiros inicialmente sem bagagem que atingem a média de 184 kg param de prestar serviço e passam a consumir. No próximo porto eles convidam mais passageiros sem bagagem. Quando o nível de afundamento do navio fica mais evidente, as pessoas logo culpam os novos passageiros, sem pensar nas bagagens. A verdade é que apenas o peso adicionado à bagagem dos 68 passageiros que começaram praticamente sem bagagem somou 12.521 kg. Isso é mais do que o navio poderia suportar, mesmo que não existissem o exagerado e os medianos (e independente dos sem bagagem que entraram depois).
(3) Diante disso, uns começam a defender que não se admitirá mais ninguém no navio e que, se possível, alguns deveriam sair. Outros se esforçam para desenvolver uma tecnologia que aumente a capacidade de carga do navio. Um dia, quando o navio afunda de vez, apenas os mais ricos e influentes compram lugares nos botes salva-vidas e escapam do destino funesto.

Esta imagem em 3 etapas é para mostrar que o caminho para uma sociedade igualitária não passa apenas pela proposta de nivelar todos pelo que, hoje em dia, achamos que é o mediano. Vamos precisar sua pertinência com alguns dados: Sobre a parte (1) Somos 7 bilhões de pessoas que emitem 46 bilhões de toneladas métricas de gás carbônico por ano (dados de 2010 do World Resources Institute). Se a divisão fosse igualitária cada pessoa seria responsável por 4 toneladas anuais. Na verdade, uma pessoa afluente (classe média) emite 11 toneladas ao ano. Um americano emite (gráfico) 20 toneladas e um chinês 3. O IPCC (Painel Intergovernamental Sobre a Mudança Climática) estima que se tudo continuar como está agora a temperatura do planeta aumentará 2° até 2030 (gráfico). As consequências catastróficas projetadas são conhecidas e anunciadas: derretimento de geleiras, inundação de costas e ilhas, pausa das correntes marítimas e, etc... Uma mudança deste destino que seja alcançável defende que 2 toneladas ao ano por pessoa é uma quantia sustentável. Ou seja, a média global tem que cair pela metade e a média afluente tem que cair 80%. O mediano está longe do ideal.

O que a ilustração do navio baseada nos dados mostra é que, mesmo se enquanto sociedade nós atingíssemos um nivelamento embasado no que consideramos o mediano, o planeta não suportaria. Curto e grosso, nosso estilo de vida afluente, em um mundo de recursos escassos, depende da miséria dos pobres. Desse modo, um quadro (um tanto utópico) como (2) no qual o crescimento econômico dos países subdesenvolvidos vai acabar com a pobreza do mundo não é desejável (numa análise malthusiana). Seria preciso (3) ou reduzir o que é o médio ou inventar uma tecnologia que faça o navio suportar mais peso. 

Na verdade (2) é uma possibilidade utópica porque, apesar da eficácia comprovada de intervenções humanitárias em situações de extrema pobreza, o mundo tem se desenvolvido intensificando a polarização na qual os mais ricos ficam ainda mais ricos e os mais pobres tornam-se mais numerosos. De 1988 a 2008 a renda dos 5% mais ricos da população aumentou e a dos 20% mais pobres diminuiu (pdf). Além disso, também a alegada redução do número de pessoas em pobreza absoluta parece ser, no mínimo, questionável, já que se deve um pouco a manipulação de dados e critérios.
É verdade que o desenvolvimento está se alastrando e reduz a pobreza. Nos anos 1950 mais da metade da população vivia em pobreza extrema (com menos de 1,25$ por dia), hoje o número caiu pela metade. O fator mais responsável pela redução da pobreza no mundo recente foi o crescimento da China, responsável por ¾ da redução. Há duas décadas 84% dos chineses estavam abaixo da linha da pobreza, hoje são apenas 10%. O lado negativo dessa melhora é que, quando alguém sai da pobreza, junto com os benefícios que eles recebem, aumentam também as externalidades geradas por este novo estilo de vida. A China, por exemplo, se tornou nesse período a terceira região (mas a última informação disponível é de 1994!) que mais emite gás carbônico no planeta, atrás dos EUA e UE. Além disso, a uma taxa de crescimento de 2%, ainda alta, mas diferente da China, os países pobres precisariam de 35 anos para dobrar a renda dos que vivem em pobreza extrema. Não só é muito tempo como ainda, nesse intervalo, os medianos também dobrariam sua renda e consumo (já 30 vezes maior). Portanto, mesmo que o desenvolvimento econômico se alastre por todo o mundo, as consequências parecem mais próximas de distopia do que de utopia.

Quem vê na imagem do navio um quadro malthusiano (e não está de todo enganado) tende a agir como os primeiros passageiros em (3), culpando os que entraram depois pela insustentabilidade da situação sem olhar para a mochila que carregam nas costas. É assim que surge a crítica à superpopulação que reverbera no tema da ajuda internacional. Em um mundo superpovoado com 7 bilhões de pessoas no qual os pobres são responsáveis por maior parte desse crescimento, muitos defendem que ajudá-los só seria justificável se fosse no sentido de planejamento familiar. Porém, quem pensa assim ignora que, na verdade, o responsável pela insustentabilidade do modo de vida dos humanos não é o aumento no número de pessoas, mas o aumento do consumo de recursos naturais por uma pequena parte da população. Em termos mais pessoais, é o filho único de um casal afluente (classe média) que vai consumir 11 toneladas de gás carbônico ao ano e não os 6 filhos de pais em pobreza extrema que consomem menos de uma tonelada. Compare (gráfico 2) as 21.6 toneladas do luxemburguês com a 1.1 do indiano. Nesta perspectiva, para combater o aquecimento global, em vez de distribuir preservativos aos outros pense em parar de comer carne, andar de avião, carro e, etc. Enfim, a imagem é malthusiana no sentido de prever um futuro insustentável, mas se diferencia ao atribuir mais responsabilidade ao estilo de vida médio do que à quantidade de pessoas.

Esta distinção de responsabilidade, no entanto, não altera em nada o principal contra-argumento a qualquer posição malthusiana. Este tipo de crítica ignoraria a evolução tecnológica que permite evitar as situações insustentáveis que aparece em (3) na corrida tecnológica por aumentar a capacidade de carga do navio. O cálculo original de Malthus (wikip) era que se a população continuasse crescendo na razão que crescia a certa altura não haveria comida suficiente para todos. Hoje em dia, no entanto, a população cresce ainda mais rápido e há (em quantidade) comida para todos. Isto acontece graças à chamada 'revolução verde' que, com uso da ciência, aumentou em muito a capacidade de produção de alimento por m² no planeta. Mesmo não tendo se concretizado, o cálculo de Malthus ou do aquecimento global continua correto porque ele mostrava o que aconteceria se as coisas continuassem como estavam. Por outro lado, o caso contingente de que se desenvolveu uma tecnologia para o problema do alimento em nada garante que se desenvolverá uma solução para o aquecimento global. E mais, a solução contingente provavelmente só aconteceu porque a previsão pessimista foi aceita como real.

Uma análise retroativa desse caso histórico revela algo ainda mais importante. Graças à revolução verde temos comida suficiente para todos (sem entrar na questão dos efeitos colaterais à saúde e ao solo de algumas destas intervenções). Mesmo assim, uma grande parte da população ainda passa fome. Isto é uma prova de que a tecnologia pode até fornecer os meios, mas sozinha não vai resolver o problema. Resolver a ameaça do aquecimento global com uma solução tecnológica ainda nos soa como ficção científica, mas isso não é argumento contra sua probabilidade. A colonização de outro planeta, por exemplo, por certo implicará na seleção de alguns indivíduos de poucas espécies que sobreviverão como os passageiros ricos que ocuparam os botes escassos em (3). Desse modo, ainda que continue sendo justificável a busca por soluções tecnológicas, parece que a maneira mais ética (ou igualitária) de atacar o problema passa por uma redução no consumo e melhor distribuição de uso de recursos naturais que o desenvolvimento e crescimento econômico exigem.  

Sobre solucionar problemas causados por nós mesmos



As nossas maneiras mais comuns de solucionar problemas, principalmente os causados por nós mesmos, podem ser colocadas em um espectro que varia entre dois opostos. Em um lado, temos a solução por abstinência, de outro, a solução por imersão. O que a nomenclatura escolhida tenta deixar evidente é que, ou bem solucionamos um problema deixando de fazer o que o causa, ou bem entramos a fundo na sua causa a fim de encontrar uma solução ali de dentro. Na maioria das vezes, lidamos com os problemas em posições intermediárias do espectro, mas sempre, conscientemente, tendendo para um ou para outro lado.

Um exemplo corriqueiro pode ser pensado a partir dos relacionamentos humanos. Às vezes, diante de um relacionamento que deixou de funcionar, o abandonamos, outras vezes, tentamos torná-lo mais sério. De um lado, dois namorados entediados podem se separar e um cônjuge de um casamento naufragado, após o divórcio, pode decidir morar em uma cidade diferente. Do outro lado, dois namorados entediados podem decidir se casar tanto quanto um casamento que afunda pode tentar ser resgatado pela opção de ter filhos.

Não há uma resposta única para o modo de agir preferível. É fácil pensar em exemplos de relacionamentos resgatados por um compromisso mais sério ou por crianças, bem como em vidas que prosperaram após o abandono de parceiros. Esse parece ser mais um caso de 'cada caso é um caso'. Mais interessante ainda é pensar que não só cada caso é um caso, mas cada um é de um jeito. Nessa concepção, um certo tipo de personalidade tenderia a solucionar as coisas por abstinência enquanto outros prefeririam optar pela imersão. Se for assim, identificar uma tendência em si pode ser uma estratégia importante, não só para aproveitar suas forças, mas também para evitar ser feito refém delas.

Uma pessoa que sempre abandona um relacionamento pode vir a perceber que, dependendo do caso, convém tentar fazer uma força para dar certo. Ao passo que aqueles que tentam insistir sempre devem aprender a reconhecer quando abandonar o barco. Bom, acho que é hora de abandonar o exemplo comezinho do relacionamento. Mais importante para a ética é pensar em casos que envolvem uma comunidade mais numerosa de pessoas. O que vem em mente, nestes tempos, é o aquecimento global. E, nesse âmbito, o exemplo primeiro é sempre dos veículos que usam energia gerada por combustíveis fósseis.

Diante de um problema identificado temos, então, a opção de agir em qualquer uma das direções. Durante muito tempo, por uma razão de economia, se adicionava chumbo líquido à gasolina. Porém, quando ficou provado que o chumbo, em qualquer quantidade, faz muito mal aos humanos (e após muita luta contra a indústria automobilística), abandonou-se o uso deste metal na gasolina. Eis uma solução por abandono moderado. Porém, após um tempo, concluiu-se que a queima da gasolina é nociva para a atmosfera terrestre e que os combustíveis fósseis não durariam eternamente. Uma solução imersiva foi o desenvolvimento de biocombustíveis, como etanol, para ser misturado à gasolina. Como o etanol tem origem vegetal (a cana-de-açúcar, entre outros) o problema da renovabilidade foi resolvido. No entanto, o problema ambiental talvez tenha sido ampliado. A demanda por grandes quantidades de um só vegetal incentiva a monocultura, desmatamento de florestas e corrosão do solo. No fim, temos o sucesso fracassado do abandono moderado e o sucesso fracassado da imersão moderada.

Em situações como essa, os dois tipos de personalidades encontram evidência para corroborar sua opção e criticar a oposição. Os abstinentes veem no sucesso do abandono a prova de que a esperança está na abstinência extrema, sem reconhecer as limitações desta opção apontada pelos imersivos. Para estes um mundo sem mobilidade tem mais a perder do que um mundo sem gasolina. Os imersivos veem no sucesso da imersão uma prova de que, com mais pesquisa, novas soluções aparecerão. A isso os abstinentes retrucam dizendo que a tal solução só vai gerar um problema ainda maior. Não acredito que haja uma resposta definitiva, mas, o que nenhum dos lados tende a admitir de primeira, parece ser o mais provável. O abandono total só vai acontecer se houver uma opção alternativa de eficiência comparável.

O terceiro exemplo chega mais próximo ao assunto do blog. O altruísmo eficaz, que incentiva a doação de parte da nossa renda para acabar com a pobreza, advoga, principalmente, dois estilos de vida opostos. Um deles é o 'ganhar para doar' (earning to give), no qual se incentiva os altruístas a seguirem carreiras altamente lucrativas (como tecnologia, advocacia ou o mercado financeiro) para terem muito o que doar. A crítica de índole abstinente a esta opção é que, muitas vezes, estes empregos parecem estar diretamente relacionados com a criação de desigualdade no planeta. Porém, a contrarresposta também é pertinente. O fato de que um altruísta eficaz vai ocupar aquele cargo retira um inescrupuloso de uma posição importante e pode contribuir para a mudança na ordem mundial.

A outra opção de estilo de vida é o 'poupar para doar' (not-spending to give). Nesse caso, a opção é por um estilo de vista bem simples que permita, mesmo com um salário moderado, que uma quantia relevante seja doada. A oposição imersiva a esta opção é que a quantia doada será muito menor. Um poupador que doa 90% do seu ganho, normalmente, vai doar menos, em absoluto, que um ganhador que doe 20% do seu salário. Em vista dos benefícios que a ajuda humanitária causa, esta diferença não pode ser ignorada. A resposta imersiva a isto é que os trabalhos mal remunerados, normalmente, são estratégicos para a formação de opinião pública (professores, pesquisadores e etc.). Assim, ao convencerem um grande número de pessoas a aceitarem o altruísmo eficaz, eles podem aumentar o impacto da sua atuação.

Soluções para vários problemas podem ser pensados nesse paradigma. Por exemplo, solucionar o problema das mortes no trânsito inventando carros que se auto-dirigem ou com políticas que incentivem os humanos a abandonarem comportamentos arriscados. Resolver o aquecimento global com soluções engenhosas como uma camada de ozônio artificialmente criada ou com abandono de comportamentos que geram externalidades muito altas como viagens aéreas ou uma dieta carnívora. Curar a malária inventando uma vacina ou usando redes para impedir o contato com o mosquito. A dificuldade é que se pensarmos em um mundo de recursos escassos as duas estratégias competem. Por exemplo, o dinheiro gasto na pesquisa  de uma vacina poderia ser usado na compra de redes. A pesquisa é uma aposta que pode não dar em nada ou pode gerar uma solução definitiva. As redes, opção conservadora, tem resultado positivo e imediato, fácil de mensurar, mas limitado. A tendência, se pensarmos na humanidade como um todo, é escolher um pouco dos dois e, talvez, sem termos consciência disso (já que no nível do indivíduo cada um tem uma preferência), esta não-radicalidade provocada pela união de ideais radicalmente opostas, seja a melhor alternativa mesmo.

Não tenho resposta para escolher um ou outro, mas não acho que seja um caso de suspender o julgamento com a premissa de que um não faz mais bem ou mal do que o outro. Se popularidade for um bom indício, o ganhar para doar é o responsável pela maior atenção da mídia ao altruísmo eficaz. Por enquanto, eu sigo no poupar para doar, mas admito que é muito mais porque se adequa ao meu tipo de personalidade do que quaisquer outras, das muitas, explicações racionalizantes que eu possa usar para me justificar. Entre estas, as mais convincentes, atualmente, são a ecológica e ideológica. Tento deixar a menor marca de carbono possível na terra e também evito participar de relações mercantis que contribuem para exploração de seres humanos e animais. Por exemplo, reduzi todos meus eletroeletrônicos para um laptop. Mas isso só é possível porque o laptop me serve de TV, som, leitor e editor de textos, telefone... O ponto é que muitos tiveram que aprofundar no problema para possibilitar minha simplificação. Minha dúvida, então, é se este é um daqueles casos em que a gente deve aproveitar as nossas forças ou deixar de ser refém delas.


*Agradeço ao José Oliveira, que (como sempre) fez comentários que me ajudam muito a melhorar o texto.

Faz sentido ser especista e vegano?


Introdução
Hoje em dia a maioria das pessoas concorda que não é correto infligir dor desnecessária em um animal. Por exemplo, esportes que requerem um tratamento cruel de animais como as touradas e as rinhas de cães ou galos são condenados pela opinião pública. Reconhecemos, portanto, (sem precisar sermos utilitaristas) a dor como um critério primordial para guiar nossa conduta face a outros animais. Por outro lado, normalmente também é aceito que os outros animais sejam maltratados para alimentar os humanos. As duas situações são similares: maltratar uns para beneficiar outros. Ademais, a produção industrial de carne gera muito mais sofrimento que os esportes citados acima. Um caso é aceito, o outro não, mas por quê?

Argumento da necessidade
A justificativa mais normal procura diferenciar o tipo de benefício extraído da crueldade com os outros animais. Tendemos a achar que comer carne animal é necessário enquanto que nos entretermos com esportes não é. Porém esta explicação não parece se justificar. Estudos nutricionais comprovam que é possível que uma dieta vegana supra todas as necessidades dos seres humanos. A única vitamina necessária, a famosa B12, pode ser adquirida por suplemento ou por uma dieta vegetariana. Vários atletas de alto nível, por exemplo, não comem carnes ou derivados. De modo que, assim como podemos achar outros esportes que não prejudicam outros seres sencientes também podemos achar outra dieta tão (ou mais saudável) que a carnívora. Mas este tipo de evidência não basta para mudar o nosso comportamento.

O argumento da evolução
Ainda que a necessidade atual não seja um critério válido para uma dieta carnívora, recorremos a outras justificativas. Uma bem popular se embasa na hipótese de que foi o fato de comer carne que fez com que os seres humanos evoluíssem seus cérebros. Porém, pesquisas antropológicas mostram que o desenvolvimento do cérebro veio bem antes de uma dieta carnívora. Além disso, usar a evolução da espécie como justificativa de causar sofrimento alheio não parece convincente. Ninguém aceitaria sacrifica a nossa própria espécie para benefício futuro, por exemplo, escravizando uma geração de crianças para fazer testes genéticos de modo a criar uma geração mais evoluída de seres humanos. Sem mencionar que nós humanos 'evoluídos' já fracassamos em utilizar o habitat que compartilhamos com os outros de maneira sustentável, o que leva a hipóteses de que grandes inteligências tendem a se extinguir pois fazem mal ao ambiente.

Opções de dieta
Diante da não necessidade de comer carne deveríamos abrir mão deste tipo de dieta. Neste ponto existem várias opções de acordo com diferentes motivações éticas. Duas oposições extremas são o veganismo e o ominivorismo consciente. O vegano se abstém de utilizar qualquer produto que explora algum tipo de vida animal por considerar antiético. Um problema desta posição é ignorar que a produção vegetal e animal, em fazendas tradicionais, estão mais ligadas do que imaginamos de modo que o cultivo de vegetais implica algum uso de animais. O ominívoro consciente, por sua vez, não se importa com a morte dos animais. Seu problema é com o tipo de vida que este animal teve até morrer. Ele é contra a produção industrial de carne porque esta não permite aos animais que eles tenham uma existência plena durante a vida. Por outro lado, se estes animais são criados com espaço, direitos e tratamento que leva em consideração suas necessidades, eles não veem problema em abatê-los para virar alimento. Mesmo dentro desta perspectiva, pode-se argumentar que esta é uma posição elitista já que não há espaço para produzir carne desta maneira a fim de alimentar toda a humanidade. De maneira análoga o vegano também deve aceitar as conquistas da revolução verde, já que sem o uso de fertilizantes e pesticidas parece difícil que se produza alimentos, mesmo de origem vegetal, para toda a população mundial. Mas, mesmo após alterar a dieta face à não necessidade de uso dos animais para nossa satisfação, restam questões relevantes nas maneiras em que vamos interagir com os animais não humanos.

Especismo
Uma vez que não há um critério real para explicar a preferência de uma espécie em detrimento da outra, fica caracterizado um tipo de preconceito. Este é denominado especismo e consiste em conceder um tratamento privilegiado aos membros de uma espécie apenas por pertencerem a essa espécie. O ser humano tende a ser assim. Quando a gente prefere salvar uma criança em vez de um filhote de outro animal, provavelmente, estamos sendo especistas. Este tipo de comportamento parece introjetado na nossa natureza. Isso não quer dizer que ele não possa ser alterado, mas apenas que a resposta é tão automática que é difícil de ser questionada. Se questionada, no entanto, a resposta que normalmente emerge é de que a vida humana, por ser mais complexa, merece ser mais valorizada. Este tipo de resposta se adéqua à nossa intuição de que é melhor salvar uma criança no lugar de cem insetos, cinquenta peixes, dez frangos ou cinco cachorros. Mas existe algo que pudesse definir esta suposta maior complexidade da vida?

Inteligência
Mais uma vez o principal critério parece estar ligado à razão ou inteligência. Uma vez que a relação do ser humanos com as experiências passadas e projeção do futuro nos parecem ser mais fortes do que outros animais mais imediatistas, acabamos valorizando mais uma vida humana do que outros tipos de animais. Quem aceita este tipo de justificativa, portanto (se quiser ser coerente) tem que usar a inteligência como critério de preferência. Apesar dos exemplos acima, este não parece ser sempre o caso. Imagine que você está no campo e vê um lobo correndo na direção de um filhote de gato e um filhote de porco. Se você pode salvar apenas um, qual seria? Sendo criado numa cultura ocidental as chances são grandes de que você simpatize mais com o gato. Apesar disso, parece seguro afirmar que porcos são mais inteligentes (têm uma subjetividade mais complexa) que os felinos. A explicação na preferência pelos felinos é emocional. Como os gatos parecem mais bonitinhos a olhos humanos, acabamos os privilegiando. Logo, se quisermos adotar um especismo coerente seria preciso escolher entre o critério da inteligência ou o da aparência. Ou a gente passa a privilegiar os que têm uma existência mais complexa ou os que nos parecem mais bonitinhos.

Aparência
A justificativa máxima para o especismo é explicar nossa preferência por seres da nossa espécie. Posto que existem vários filhotes de outros animais que nos parecem mais bonitos do que alguns bebês humanos, e, mesmo assim, a tendência segue sendo preferirmos salvar qualquer bebê humano no lugar de um filhote de outro animal, a aparência falha em fornecer um critério coerente de ação. Voltamos, então, ao uso da inteligência como um critério de privilégio. Porém, aqui é preciso fazer uma ressalva. Inteligência (provavelmente um termo equivocado) não deve ser entendido no sentido de potência de raciocínio, já que não parece defensável que uma pessoa mais inteligente nesse sentido (medido pelo QI, memória, erudição e, etc...) deva ter privilégio de tratamento (estes traços, na verdade, já facilitam muito sua vida). Assim como os humanos mais bonitos (que também podem ter vantagem por isso) não merecem privilégio algum de consideração moral. A inteligência usada como critério aqui, então, teria o sentido de riqueza nas experiências subjetivas. Como a mente humana parece sim ser mais refinada no trato com experiências passadas e antecipações do futuro, bem como no relacionamento com outras mentes, o sofrimento provocado nela seria maior. Voltamos assim à questão da dor. A inteligência só serve de critério porque ela possibilita uma experiência mais dolorosa do sofrimento e da morte. Esta parece ser a melhor justificativa para o especismo.

Graus de sofrimento
Este pensamento permite alguma hierarquização no sofrimento infligido aos outros animais. Por exemplo, uma vez que mamíferos teriam uma experiência subjetiva mais complexa que os crustáceos, seria menos ruim comer estes últimos. Porém, este tipo de análise que isola um critério esquece que a pesca predatória de peixes e crustáceos tem um impacto ambiental altíssimo que vai além do sofrimento provocado em suas vítimas. O mesmo é verdade para os animais terrestres. A produção de calorias em forma de 1 kg de carne bovina demanda 7 kg de grãos. Para cada quilo de carne de porco seriam necessários 4 kg de grãos. Em vista disso, mais sustentável é abandonar a carne e ir direto aos grãos. Ainda segundo o princípio isolado do sofrimento, seria melhor evitar todo tipo de carne de rebanho e evitar ovos, já que sua produção industrial provoca muito sofrimento. Um quilo de ovos requer 70 dias de confinamento. Por outro lado, consumir laticínios seria a maneira menos ruim de adquirir B12 de maneira natural pois apenas 2 horas de confinamento são necessárias para produzir um quilo de leite.

Intervencionismo
Levado ao extremo esta postura de evitar sofrimento acaba nos colocando diante da possibilidade de intervir na natureza para reduzir o sofrimento dos animais selvagens. De fato, parece que a maioria das vidas selvagens tem mais sofrimento do que prazer. Os sinais de estresse, ferimento e expectativa de vida de animais selvagens colocam em questão se este tipo de vida vale a pena. Alguns defendem que a vida selvagem repleta de sofrimento e desafios realiza os indivíduos que nela existem, mas este tipo de defesa soa simplesmente retórica. O melhor argumento contra intervir na natureza é conservador. Na verdade, como na maioria dos casos as intervenções humanas na natureza com intuito de melhorar acabam sendo desastrosas por não preverem muitas das consequências, parece ser melhor deixar a coisa funcionar como agora e concentrar o esforço em não prejudicar (em vez de tentar melhorar).

Em benefício próprio
A situação hipotética de termos que escolher salvar vinte cachorros em vez de um humano provavelmente não acontecerá com nenhum de nós. Porém, vários casos similares acontecem no contexto em que existimos. Um caso é o dos experimentos científicos. Por exemplo, para saber se um shampoo fazia mal aos olhos humanos fazia-se, até bem há pouco tempo, testes em coelhos. Ainda hoje, pesquisas com ratos são o primeiro passo para o teste de várias vacinas. Mais uma vez, o primeiro caso não é mais aceito, o segundo, sim. De novo, a explicação parece ser a necessidade. O benefício de um produto de beleza é visto como fútil e não justificaria o sofrimento dos animais. Por outro lado, a criação de uma vacina traria um benefício imenso e necessário para os seres humanos (e também para outras espécies, caso se adote um programa de vacinação animal), o que parece justificar o sofrimento de infligido aos animais não humanos.

Em benefício dos outros
O caso da alimentação de humanos em extrema pobreza também se apresenta aqui. Muitas ONGs sugerem que compremos vacas, porcos ou outros animais que servirão de fonte de alimentação para pequenos fazendeiros cujas pequenas terras e rebanhos tornaram-se improdutivos devido ao aquecimento global. É uma escolha especista salvar uns, os humanos pobres, com a vida dos outros, os animais de rebanho. Além disso há sempre a escolha de doar nossos recursos que são escassos. Podemos aplicá-lo em organizações que lutam pelo direito dos animais ou em organizações que combatem a pobreza extrema (o conflito ainda aumenta na medida em que o aumento de rendimento implica um aumento de consumo de carne, como o caso da China, Índia e Brasil comprovam). Quem ainda aceita a complexidade subjetiva como um critério, deve optar por doar 100% do dinheiro dedicado ao altruísmo para salvar vidas humanas. De qualquer maneira, nos casos que não envolvem escolhas, não há dúvidas. A adoção de uma dieta vegana é um exemplo disso. Outra possibilidade é doar tempo na promoção dos direitos dos animais tentando convencer os outros a adotarem uma dieta sem carne.

Bichos de estimação
Outro problema que aparece é o caso dos bichos de estimação. A escolha por ter cachorros e gatos domésticos, por exemplo, parece ser especista, já que estes animais são predadores urbanos que geram muitas mortes. Um gato provoca uma morte a cada 17 horas fora de casa. Por outro lado, não se deve ignorar o benefício gerado aos animais de estimação. Com certeza eles são bem tratados como nunca e, nos casos em que não são criados presos, levam vidas plenas. Isso justifica, principalmente, o caso de se adotar um animal abandonado como bicho de estimação. Ainda assim, existem efeitos colaterais. Ter um cachorro parece gerar mais poluição que adquirir um carro grande como um SUV. O ideal talvez seja evitar os dois. Este efeito de poluição é ampliado no caso dos animais de rebanho, já que estes mamíferos, através de seus gases, são grandes produtores de metano.

Conclusão
As questões são complexas, minha apresentação é introdutória, e pede aprofundamento. De qualquer maneira, respostas fáceis não virão. O mais importante, no entanto, é não usar esta dificuldade de posicionamento como uma justificativa para a inação. Não é uma questão de tudo ou nada. Só porque você não vai acabar com todo sofrimento animal, não quer dizer que você não deve fazer nada para melhorar a situação em que o mundo se encontra. Por isso para de ir a touradas, procurar comprar carne de animais tratados com alguma dignidade, virar vegetariano, vegano, resgatar um cachorro na rua e, etc são todas atitudes válidas que devem ser feitas por quem quiser e valorizadas mesmo por quem não as faz. Em termos práticos um dia sem carne já reduz algum sofrimento e poluição. Estes casos são exemplos de situações em que tentar já é conseguir.

O dia em que eu (não) deixei de ser humano para ser um altruísta eficaz









Introdução:
O altruísmo eficaz, num certo sentido, tem uma pretensão de ser sobre-humano. Isto porque advoga a necessidade de superação dos chamados 'vieses cognitivos', que são maneiras pelas quais nós, humanos, erramos sistematicamente. O exemplo mais direto é o da distância psicológica que mostra como a gente tende a sentir mais compaixão pelo que está mais perto, mesmo sem ter razão para isso. Desse modo, normalmente, preferimos ajudar uma pessoa que está em perigo ao nosso lado em vez de ajudar uma dezena de pessoas longe de nós. Segundo o AE este é um viés a ser superado já que é preferível salvar dez pessoas no lugar de uma. Por esse tipo de princípio tal posição pode ser acusada de 'calculista' já que ignora o sentimento causado pela proximidade em vista do número de vítimas a ser salvo.

A teoria colocada em prática:
Por ser calculista, o AE sugere que doemos a parte de nossa renda para onde nosso dinheiro escasso causará o maior impacto positivo no maior número de pessoas possível. Numa aplicação prática isso requer que eu não dê 2 reais para um pedinte na rua se posso dá-los ao programa de controle da esquistossomose que precisa dessa quantia para facilitar entrega de tratamento na África. Apesar do pedinte na esquina me comover mais, em geral, o que eu faço é reservar uma quantia do meu ordenado para doar para causas eficazes.

Negligenciar o sofrimento que se apresenta diante de nós é uma tarefa árdua. Mas é importante notar que, no fim das contas, a preferência por gerar o máximo de bem com o mesmo recurso é que é mais humanista. Apesar disso, não é preciso desconsiderar a crítica por completo. Mesmo diante da superação de um viés cognitivo é sempre bom observar também sua função operante no dia a dia. Se não construíssemos alguma distância psicológica em relação ao 1.2 bilhão de pessoas que vive atualmente em extrema pobreza (com menos de 1.25 dólar por dia) atualmente, seria muito provável que a angustia causada por tamanho sofrimento nos impedisse de viver. Neste sentido, seguir com a vida mas doar uma parte da nossa renda para combater a pobreza é uma forma de superar a distância psicológica sem deixar que essa superação se transforme num impedimento. Por outro lado, convém tomar cuidado para que a superação da distância psicológica não leve a uma posição na qual deixemos de sentir comoção diante do sofrimento alheio.

A prática interferindo na teoria:
Por exemplo, quarta passada (14/04/2014), uma figura esquálida subiu no ônibus em que eu ia para a universidade. Ele fez um discurso emocionado. Contou que tinha AIDS, adquirida da mulher, e que eles tinham um filho com uma doença rara (esqueci o nome). O homem disse ainda que precisava conseguir 200 reais para comprar o remédio que salvaria a vida da criança (por uns dias). Enquanto ele falava eu pensava. Não faz sentido nenhum dar dinheiro pra ele. Mesmo se a história for verdadeira, o remédio caro vai apenas retardar o desfecho trágico inevitável. É muito melhor usar este dinheiro com uma causa mais eficaz. Só que, vivendo a situação, eu não gostei de pensar assim. E mais, foi só porque eu pensei assim e não gostei de fazê-lo que acabei dando algum dinheiro para o pedinte.

É claro que não abandonei meus princípios. Antes de dar o dinheiro eu me comprometi a não deduzir a quantia da minha doação mensal. Assim, eu pensei, não retiraria dinheiro de uma causa eficaz para contribuir com uma ineficaz. É claro que não foi preciso pensar muito mais pra concluir que, na verdade, eu deveria era ter aumentado a quantia que doo por mês com o que dei para o pedinte. Para solucionar o dilema, resolvi acrescentar a mesma quantia que doei a ele à minha doação desse mês. É claro que nesse ponto a tendência é cair numa repetição ao infinito de sempre aumentar a quantia a ser doada. Porém, recorri a distância psicológica e freei o impulso (correto mas ainda sobre-humano demais para mim) de aumento indefinido.

Reavaliação:
O homem desceu do ônibus, mas eu segui pensando na situação. Pensei que talvez pudesse ser mentira a história dele, apenas uma ficção criada para tirar dinheiro das pessoas. Diante disso, o primeiro impulso é se indignar. Mas, depois de considerar a questão mais um pouco, acabei defendendo o contrário. É, às vezes é melhor terminar em reavaliação do que em conclusão.

Eu espero mesmo que seja mentira e que ele tenha nos enganado. Isto porque dar dinheiro pra alguém saudável que vai usar o recurso pra melhorar sua vida é melhor do que suportar uma causa perdida apenas por piedade. E mais, a mentira dele (se for mentira, é claro) conta muito sobre a nossa postura diante da necessidade dos outros. Se ele subisse no ônibus e dissesse que o seu filho tinha esquistossomose e precisava de dinheiro pra tratá-lo pouca gente ia se comover. Isso porque essa doença tropical negligenciada não é vista por nós como uma ameaça real já que vivemos uma realidade tão diferente da maioria da população mundial em extrema pobreza. É preciso, portanto, romper a distância psicológica para saber que as doenças tropicais negligenciadas causam mais dano que a Aids. Então, ciente de que do nosso ponto de vista comovente é a Aids (doença ainda sem cura!), o que o homem fez ao inventar aquela história foi adequar o seu drama real a um vocabulário que nós entendemos. Desse modo ele realizou, apelando para os sentimentos, o que o AE quer fazer através da razão: quebrar a distância psicológica para levar a ação. Parabéns a ele, um altruísta eficaz inato.

Quem não teve a sorte de encontrar com um pedinte hoje pode ir ao site do SCI e fazer uma doação.

Cansados demais para fazer a coisa certa:








Introdução
A divisão do dia em três intervalos de 8 horas é arbitrária. Sua motivação é apenas a de dividir 24 horas em três partes iguais. Desta divisão, mais do que de qualquer evidência, surgem padrões comportamentais como a jornada de 8 horas de trabalho e a necessidade de dormir 8 horas por dia. No ideal original as outras 8 horas seriam dedicadas ao lazer. Em vista das jornadas absurdas de trabalho de 16 horas diárias em 1817 as motivações dessa proposta de divisão feita por Robert Owen são justificadas. Mas só porque ela é responsável por um importante ganho no direito dos trabalhadores não quer dizer que está correta.

Em tempos pré-revolução industrial sociedades de catadores-coletores tinham jornadas de 3 a 4 horas diárias de trabalho esparsados ao longo do dia. Também sua postura em relação ao sono era diferente. Mais comum era dormir durante a noite em dois ou três períodos divididos por intervalos de semi-vigília. Apesar disso, não só porque um comportamento foi o mais comum durante a maior parte da história da humanidade é necessário que seja o melhor para nós. Atualmente pesquisas confirmam que nossa capacidade de atenção dura períodos curtos de tempo (90 mins) e que pequenos intervalos de descanso (20 mins) aumentam a capacidade de foco e produtividades. Assim, além da quantidade, também a divisão em três blocos imensos e contínuos de trabalho, descanso e lazer não parecem ser o ideal para se aproveitar nossa natureza humana.

Estado da questão

Hoje em dia cresce o debate acerca da redução da jornada de trabalho. Na maior parte as justificativas por essa redução respondem a crítica de Marx. Segundo ele exigir muito da força de trabalho acaba matando essa força. Neste espírito, buscam-se experiências que mostrem como uma jornada mais condensada é melhor para trabalhadores e empresas pois aumentam a produtividade. O exemplo clássico é o da Ford, pioneira na redução da jornada de trabalho para 8 horas que, aliado ao aumento de 100% nos salários dos trabalhadores, dobrou seus lucros. Hoje em dia, as famosas jornadas flexíveis da Google tentam repetir este pioneirismo atacando não só a quantidade mas a distribuição do período de trabalho.

Além disso, outra motivação comum para redução da carga horária é política. Seus defensores argumentam que uma dupla jornada mais curta aparece como candidata a amenizar a crise de emprego no mundo desenvolvido. Mas talvez haja ainda outro motivo para a redução da jornada de trabalho, o comportamento moral.

Uma nova hipótese

Pesquisas comportamentais revelam que o cérebro age como um músculo. A analogia quer dizer que ele precisa ser exercitado para atuar, mas que, cansado após muito exercício, fica mais propenso a falhar. O autocontrole segue o estado do cérebro. Após um dia extenuante de trabalho é muito mais difícil resistir a uma sobremesa do que logo pela manhã. É neste ponto que a moral entra na história. Fazer uma escolha moral muitas vezes implica em autocontrole já que é preciso deixar de buscar um prazer próprio e imediato para se alcançar o bem-estar comunitário no futuro. Uma hipótese seria que pessoas mais descansadas estariam mais aptas a agirem moralmente.

Adotar esta hipótese como motivo para a redução da jornada de trabalho não é tão absurdo quanto parece. Assim como um motorista extenuado é um perigo para o trânsito, um trabalhador extenuado pode ser visto como um perigo para a comunidade. As chances de uma reação violenta, por exemplo, aumentam quando o autocontrole diminui. Tem que ser verificado, mas parece plausível supor que jornadas estafantes tenham algum efeito, por exemplo, a casos de violência doméstica. Neste quadro, um trabalhador que trabalha menos e em períodos esparsos alternados com descanso e lazer encontraria mais energia, não só para produzir, mas para gerir melhor sua vida social.

No altruísmo eficaz

Resta agora pensar a questão em relação ao altruísmo. Quem parar para analisar vai ver que a maioria dos nossos gastos é supérfluo. Portanto, é uma questão de autocontrole que vai determinar o quanto e o que gastamos a maioria do nosso ordenado. O movimento do Altruísmo eficaz defende que é moralmente correto abrir mão (pelo menos) dos gastos muito supérfluos, para ajudar quem vive abaixo da linha de pobreza. Um mosquiteiro anti-malária, por exemplo, custa 6 reais. 207 milhões de pessoas que não têm como pagar pela proteção contraem a doença por ano. Nesse quadro, resistir a uma sobremesa pode salvar uma vida. A defesa do autocontrole pode, inclusive, ir além, uma vez que na maioria dos casos o nosso consumo supérfluo tem resultados negativos a longo prazo. A gente sabe, por exemplo, que o excesso de açúcar na sobremesa fará mal para nossa saúde no futuro. Ou seja, apesar de termos motivos egoístas e altruístas para nos abstermos deste tipo de consumo, ainda assim não o fazemos. A solução não é simples e nunca será total. De qualquer maneira, se um dos motivos deste comportamento disparatado é o cansaço, a mudança da quantidade e distribuição da jornada de trabalho geraria alguma melhora. Uma sociedade menos cansada pode ser mais um pequeno passo para uma sociedade mais justa.

Quem ainda tiver energias pode ir ao site da Against Malaria Foundation e comprar alguns mosquiteiros.

Exemplo pessoal
Este artigo foi motivado por um caso particular. Eu estava andando de skate em uma pista perto da praia de Cabo Frio. Tinha andado toda a manhã, estava cansado, quando um grupo de três pessoas à caminho da praia resolve cortar caminho pelo meio da pista de skate. Eu resolvi não esperá-los pra fazer minha manobra. Caí e meu skate foi na direção deles, atrapalhando seu atalho. No primeiro momento fiquei feliz de ter 'mostrado' que eles deveriam dar a volta e passar no caminho por fora da pista. Depois, no entanto, refleti e me arrependi. O resultado deste exame de consciência foi esta postagem. 

Presentes, deontologismo e consequencialismo







Atualmente duas das mais populares escolas de pensamento ético que podem ser colocadas como opostas são o deontologismo e o consequencialismo. Para o deontologismo (de δει que em grego quer dizer 'ser necessário') o que conta para se julgar uma ação como moral é a motivação do agente. Já um consequencialista se importa simplesmente com os resultados produzidos por essa ação. Nesse quadro, uma mentira que tem boas consequências é condenável para um deontologista e aceitável para um consequencialista. Bentham, o consequencialista mais célebre, construiu sua posição em oposição ao deontologista Kant.

Mesmo assim, como a maioria das dicotomias, esta aponta para dois traços que, apesar de contraditórios, coexistem no comportamento da maioria dos seres humanos. Isso quer dizer que, sem um autoexame ético, algumas vezes agimos como consequencialistas e outras vezes como deontologistas. O padrão de educação, por exemplo, é ensinar aos filhos que é sempre errado mentir. Por outro lado, ensina-se também a dizer terem gostado de um presente mesmo quando não gostaram, apenas para agradar aos outros. A contradição que passa desapercebida pela infância encarna um debate entre consequencialismo e deontologismo. No pensamento ético atual há um esforço de tentar conciliar os dois sem se contradizer (o que não é nada simples). Parfit, por exemplo, acha que ambas escolas estão escalando uma mesma montanha por lados diferentes.

Mesmo depois de crescermos a ocasião de um presente segue nos colocando diante de intuições contraditórias. Há quem escolha um presente que ele próprio gosta para dar aos outros. Esta escolha se justifica na medida que quem dá se oferece ao presenteado. Por outro lado, há também quem prefira se anular ao escolher um presente pensando somente em quem vai receber. Isto também é justificável já que aumenta as chances de agradar ao outro. Do lado do presenteado o deontologismo aparece no dito 'o que vale é a intenção' enquanto o consequencialismo se apresenta no 'era exatamente o que eu precisava'. Por não se tratar de uma dicotomia extrema, uma vez que temos para nós bem esclarecidas as diferenças das duas posições, parece possível se esforçar para contemplar os aspectos importantes de cada uma. Desta maneira podemos achar um presente que nos represente e ainda assim agrade ao presenteado. Mas será que há espaço para uma atitude semelhantemente coadunada no âmbito da ética?

Uma vez aceito o argumento para a doação como uma obrigação moral é preciso pensar em o que e como doar. Uma postura é pensar apenas nas consequências e escolher simplesmente o que gera o melhor resultado. O problema desta postura é o risco de apoiar uma ação de cima para baixo que gere resultados positivos, mas também efeitos colaterais. Um exemplo é o uso de DDT para conter a malária. Por outro lado, pode se pensar apenas na motivação e apoiar uma causa nobre mesmo que seus resultados sejam parcos ou mesmo negativos. Por exemplo, programas de reforço educacional após o horário da aula que na verdade pioram o comportamento dos participantes em sala sem elevar seu nível de conhecimento. De alguma forma, então, a escolha por um tipo de doação deve contemplar tanto as motivações quanto as consequências das ações. A prioridade, parece sim ser consequencialista, em vista de que o que importa aqui, muito mais que no caso de um presente, é o resultado da ação. Mesmo assim, além dos resultados, é necessário também manter uma constante avaliação externa que considere os princípios das ações.

Dito isso, se alguém preocupado com os princípios e as consequências quiser uma maneira de ajudar a conter a malária que não seja invasiva como o DDT é só ir ao site da AGAINST MALARIA FOUNDATION.
Já para quem quiser aumentar a frequência de alunos na sala de aula pode apoiar o DEWORMTHE WORLD.

O que eu aprendi aprendendo










Introdução: Este post é só uma série de dicas que podem ajudar a aprender qualquer coisa. Como a minha experiência foi moldada mais no estudo de línguas eu vou usar exemplos deste âmbito. Porém, como prova da generalização, também vou relacionar algumas dicas a atividade que estou aprendendo atualmente, o skate (entre outros esportes). Apesar disto não estar diretamente relacionado ao altruísmo acredito que, por ajudar na eficácia, não está tão fora do assunto assim.

Dica 1: Use suas particularidades como vantagens, não limitações: O ponto é simples. Muitas vezes o que a gente acha que é um problema faz parte da solução. O caso do português é um exemplo. Sua desvantagem é que não é uma língua importante para o mercado internacional como o inglês ou o espanhol. Esta falta de importância impele a aprender mais línguas, o que é bom e, ademais, para um falante do português é muito mais fácil aprender inglês e espanhol do que para um falante do inglês aprender espanhol ou um falante do espanhol aprender inglês. Isso é uma vantagem.

Dica 2: Não existe este tal de primeiro passo: Comece agora! Esta dica questiona o truísmo de que o primeiro passo é o mais difícil. Na verdade não há primeiro passo porque sempre que começamos a aprender alguma coisa recorremos a outros âmbitos próximos que nos ajudam na empresa. Quer aprender inglês? Saiba que 60% dessa língua é composta de palavras de raiz latina. Isso facilita muito a aquisição de vocabulário. O caso do verbo deletar é um exemplo interessante. O verbo é latino deletare que não passou para o português (língua latina), mas acabou voltando através do inglês via vocabulário de novas tecnologias. Quer andar de skate? Você vai ver como o equilíbrio do seu corpo vai te fornecer respostas intuitivas para os problemas que se apresentarão.

Dica 3: Aprenda a usar o que você já tem: Usar o que já temos é uma vantagem, mas pode ter efeito negativo. No caso da linguagem este comportamento gera o que é chamado de embromation. Quem faz esta crítica esquece que na maioria dos casos a embromação dá certo sim. O importante é desenvolver meios de se identificar quando o conhecimento prévio deve ser usado. No caso das línguas latinas, se duas usam a mesma raiz para um termo crescem as chances de uma terceira também o fazê-lo. O verbo estudar do português é o mesmo do Francês Etudiér. Daí fica mais seguro de inferir que em italiano será studare. É como um jogador de futebol de salão que deve levar os dribles curtos quando joga no campo mas deve saber quando usar passes longos também.

Dica 4: Aposte no inconsciente mas saiba que se trata apenas de uma boa aposta: Muitas vezes, em hora de dúvida convém confiar nas intuições. No caso das línguas, por exemplo, muitas vezes palavras surgem na nossa boca sem que sequer nos lembrássemos da sua existência. Isso é porque o nosso cérebro tem um sistema que funciona no automático. Depois que a gente introjeta um comportamento ele vem como uma resposta sem precisarmos que estejamos consciente disso. Porém, é sempre bom prestar atenção nas nossas ações, pois a gente pode sim introjetar comportamentos errados que soarão como certos. Em alemão há até um verbo para isso, klingen, que quer dizer 'soar bem'. Na dúvida aposte no que soa melhor (mas depois confira para ver se está certo).

Dica 5: Não há passos: A gente gosta de ver o aprendizado como um caminho, uma escalada, mas a verdade é muito mais caótica. Às vezes ao avançar sem ter aprendido o que é considerado mais básico ajuda no desenvolvimento. Um exemplo do alemão. Normalmente se aprende os verbos modais antes dos subjuntivos, mas mesmo essa separação não é clara. Mögen (gostar) e möchten (gostaria) são ensinados com dois verbos modais diferentes. Eu só fui entender direito quanto cheguei no subjuntivo e vi que se tratava do mesmo verbo. No Skate também eu só fui aprender a dar a manobra varial (uma das mais fáceis) depois que eu tinha aprendido o pop shove it.

Dica 6: Nada traz mais inovação que a rotina: O senso comum de uma vida boa atualmente despreza a rotina como algo chato e sem graça. O problema disso é que assim se ignora uma necessidade. Não há inovação sem prática. A estimativa é que 100.000 repetições fazem o especialista. O número é ilustrativo, mas o importante é saber que sem comprometimento não haverá aprendizado nem prazer. Se você não se dedica a uma língua, nunca vai entender sua beleza. É como ler um poema catando cada palavra no dicionário, o sentido vem mas não funciona. É como pular de paraquedas atrelado a um instrutor depois de um curso de 15 minutos. Não faz sentido. É preciso se comprometer, repetir, aprender e aí sim viver a experiência. Viva a rotina.

Dica 7: crie motivações ainda que ilusórias: É importante criar uma narrativa que te motive a alcançar o fim do aprendizado. Cada um tem que usar o que funciona com ele. Um pode aprender russo em vista da possibilidade de ler Dostoievsky no original enquanto outro pensa na bela russa com quem vai conversar pela internet. Ao treinar Skate, por exemplo, dá pra pensar que se está em um campeonato. É só construir uma narrativa mental que te convença a fazer o que você tem que fazer. Isso funciona também para te ajudar a não abandonar o 'torneio' antes de conseguir realizar aquela manobra. É aquele 'só mais uma vez' que se repete ao infinito.

Dica 8: Nada dura para sempre, nada se perde: Não se trata um paradoxo, mas sim uma posição moderada. Primeiro você tem que saber que se parar de praticar vai perder. É fato. Para de estudar uma língua diariamente e sua habilidade vai diminuir. Por isto o resultado de testes de avaliação tem validade. Por outro lado, não é que você vai perder tudo e que todo esforço anterior foi em vão. Se você decidir reativar a rotina de estudos a re-assimilação do conteúdo vai ser muito mais rápida. Ademais, será uma boa oportunidade para melhorar o que já havia aprendido. Não se aprende a mesma coisa do mesmo jeito. Pra melhor ou pra pior, a segunda vez é diferente. Isso a gente percebe claramente quando vai re-aprender um conteúdo para dar uma aula, por exemplo.


Dica 9: Fique sempre alerta durante tarefas infinitas: Aprender, qualquer coisa, é uma tarefa infinita. Sempre há algo mais para dominar, se não há é porque você parou de considerar a questão seriamente. Por isso, uma dica é ficar sempre alerta. Oportunidades de aprendizado aparecem todo dia por toda parte. O exemplo mais banal é o aprendizado de uma nova palavra que pode se aparecer num livro, propaganda ou diálogo. Mais interessantes são os cruzamentos interdisciplinares. O drible de futebol pode te inspirar a fazer uma manobra de skate. Uma ideia pensada depois de um filme pode resolver um problema do seu trabalho. O importante é estar alerta para tirar proveito destas oportunidades.

ps: se você é introvertido ache um lugar reservado pra aprender, mas também se force a praticar em grupo.